Capitulo Nove
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A Oracao e a Quietude

A Oracao e a Quietude

Em meio a um ministerio intenso — multidoes que o buscavam, doentes para curar, discipulos para ensinar — Jesus fazia algo que a muitos pareceria improdutivo: retirava-se a lugares solitarios para orar. «E, levantando-se de manha muito cedo, fazendo ainda escuro, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava». Se o Filho de Deus precisava desses momentos de quietude com o Pai, quanto mais nos?

A oracao nao e principalmente uma lista de pedidos que apresentamos a Deus. E relacionamento. E conversa. E estar com aquele que nos ama. Jesus ensinou seus discipulos a orar dizendo «Pai nosso» — nao «Senhor distante» nem «Juiz temivel», mas Pai. A oracao e o filho falando com seu pai, com a confianca de quem sabe que e amado.

Davi escreveu: «Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus». Ha algo que so se aprende na quietude. O ruido constante da vida moderna — as telas, as notificacoes, as mil vozes que competem por nossa atencao — abafa a voz suave do Espirito. Para ouvi-la, as vezes precisamos simplesmente calar.

Nao se requer tecnica elaborada nem postura especial. Requer-se disposicao. «Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que esta em secreto», disse Jesus. Um lugar tranquilo. Uns minutos sem interrupcao. Um coracao aberto. Isso e suficiente para comecar.

As vezes a oracao e palavras — louvor, confissao, peticao, intercessao. As vezes e simplesmente estar presente, sem palavras, descansando na presenca de Deus como uma crianca nos bracos de seu pai. «Certamente me portei e me acalmei, como uma crianca desmamada de sua mae», escreveu o salmista. Ha oracoes que nao precisam de palavras.

Paulo exortou a orar sem cessar. Nao queria dizer que andassemos murmurando oracoes vinte e quatro horas. Queria dizer que mantivessemos uma atitude de conexao constante — uma conversa continua que as vezes usa palavras e as vezes e simplesmente consciencia da presenca. Trabalhar orando. Caminhar orando. Viver em dialogo permanente com o Pai.

Na oracao tambem ouvimos. Nem sempre como voz audivel — embora Deus possa falar como quiser — mas como clareza interior, como paz inesperada, como direcao que nao sabiamos que precisavamos. «As minhas ovelhas ouvem a minha voz», disse Jesus. A voz do Pastor se reconhece. Mas e preciso cultivar o ouvido. E preciso praticar a escuta.

As Escrituras tambem sao voz de Deus. Quando lemos a Biblia nao em modo de estudo academico, mas em modo de escuta — perguntando «Senhor, o que me dizes hoje?» — as palavras antigas ganham vida nova. O Espirito que inspirou as Escrituras e o mesmo que habita em nos, e ele conecta ambos.

A quietude nao e fuga do mundo, mas preparacao para servi-lo melhor. Jesus saia de seus tempos de oracao com clareza renovada, com poder para curar e ensinar, com compaixao pelas multidoes. A quietude com Deus nao nos torna menos ativos, mas mais eficazes. Nos enche do que depois podemos derramar sobre outros.

Encontre seu lugar deserto. Pode ser cedo pela manha, antes que a casa desperte. Pode ser num parque durante o almoco. Pode ser a noite quando tudo se aquieta. O lugar importa menos que a intencao. Seu Pai o espera em secreto, e quer recompensa-lo em publico com uma vida transformada.